Adorável monstro
Como um dos personagens mais simpáticos da Marvel foi pensado para ser um monstro assustador
Em meio a tantas citações literárias disparadas pelo Fera nas histórias dos X-Men, pergunto-me se alguma delas é de Robert Louis Stevenson. Caso não, já é tempo de mostrar o mutante parafraseando o autor de O Médico e o Monstro, já que, em determinado momento de sua trajetória, o herói sentiu na pele o drama vivido pelo Dr. Jekyll, o doce médico condenado a se transformar no perturbador Sr. Hyde. Afinal, essa versão do Fera que aprendemos a amar, esse cientista sorridente e carismático de pelos azuis e que costuma fazer as vezes de médico surgiu, na verdade, para ser um dos monstros da Marvel.
Não que o personagem tenha sido criado com esse intento, pelo contrário. Ele foi concebido por Jack Kirby e Stan Lee como mais um dos estranhos e falhos super-heróis do então recém-nascido Universo Marvel, em 1963. Ao lado de outros quatro esquisitões – Anjo, Ciclope, Garota Marvel e Homem de Gelo –, o Fera compunha os X-Men, uma equipe de pessoas nascidas com poderes extraordinários e comprometidas a usá-los em prol da humanidade. Por mais que eles fossem descritos como párias, suas tramas não passavam de histórias de super-heróis, tanto que o Fera e seus amigos tinham identidade secreta, base, supervilões e até uniformes combinandinho.
A série desses super-heróis deu certo por um bom tempo, até que parou de dar. Em janeiro de 1970, ela emperrou, e após um hiato de meses, em agosto, passou a trazer apenas republicações dos sete anos anteriores. Assim ficou até 1975, quando o grupo foi reformulado com a chegada de Wolverine, Tempestade e outros mutantes que se tornaram icônicos. Nesse tempo em que o gibi ficou rodando em falso, a Marvel não sabia o que fazer – ou não se importava – com aqueles cinco personagens. Foi quando o Fera passou por uma importante reformulação.
Histórias de monstros
A empacada na série X-Men não foi à toa, pois os negócios não iam bem para a Marvel no início dos anos 1970, na verdade, não iam bem para ninguém. A Casa das Ideias ainda mantinha sua liderança nas bancas, mas o editor Stan Lee sabia que era necessário aumentar o faturamento. Foi quando ele cresceu o olho para as histórias de monstros.
A concorrente Warren Publishing vinha fazendo muito sucesso desde os anos 1960 com suas histórias de terror e recusando-se a ajoelhar ante o código de censura autoimposto aos gibis. Enquanto Marvel, DC e outras editoras respeitavam os limites que elas mesmas haviam estabelecido de não mostrar criaturas horrendas e cenas de brutalidade em suas páginas, a Warren arrepiava o público com cabeças degoladas, pessoas enforcadas e seres diabólicos e infernais esgueirando-se pelas sombras.
Stan Lee sabia que o código de censura estava afrouxando e que não era mais tão rígido quanto fora ao longo dos anos 1950 e 1960, e embora não tivesse a mesma ousadia que James Warren, fundador e editor da concorrente, nada o impedia de testar os limites com monstros conhecidos como Drácula, Lobisomem e Frankenstein. Tanto que, em setembro de 1971 chegou às bancas a revista Marvel Spotlight 2, em que os leitores foram apresentados a Jack Russell, um homem condenado a se transformar em um híbrido entre homem e lobo em noites de lua cheia: o Lobisomem da Noite. A trama foi concebida pelo então editor-assistente Roy Thomas e sua esposa Jean Thomas, mas desenvolvida pelo roteirista Gerry Conway.
Não por coincidência, essa dobradinha entre Roy Thomas e Conway se repetiu três meses depois na volta do Fera, em Amazing Adventures 11, lançada em dezembro de 1971 (com data de março de 1972 no expediente). As dez primeiras edições da revista bimestral foram ocupadas por histórias dos estranhos Inumanos e da espiã Viúva-Negra, mas a partir da décima primeira passaria a ser protagonizada pelo Fera, o único dos antigos mutantes que mereceu atenção da Marvel, com direito à sua própria série.
O primeiro quadro da trama – desenhada por Tom Sutton – foca uma criatura deformada, coberta por compridos pelos acinzentados, com longos braços simiescos, dentes afiados, curvada sobre um telhado observando um vigia noturno. O suspense só aumenta nas páginas seguintes conforme o ser bestial se esgueira pela escuridão e ataca sua vítima. Em seguida, a tensão se forma quando a criatura tenta manipular equipamentos sofisticados em busca de algo. Por fim, a revelação: o monstro é, na verdade, Hank McCoy, um cientista cuja aparência humana foi retorcida de maneira bestial, um homem condenado, mais do que nunca, a viver como uma verdadeira fera.
“Com Marvel Spotlight 2 Roy já estava pensando nos monstros como a próxima novidade, e ele mesmo me disse que fez o Fera ficar monstruoso por causa disso”, explicou Steve Englehart à SOC TUM POW, roteirista que assumiria as próximas histórias do grotesco herói. “Se o Fera e seus amigos não vendiam como super-heróis, talvez ele sozinho vendesse como um monstro.”
Englehart substituiu Conway logo na edição seguinte e manteve o leve clima de terror, ainda que as tramas trouxessem elementos das HQs de super-heróis. Nelas, por exemplo, é revelado o destino dos X-Men na época e o motivo de Hank ter deixado a equipe, bem como sua transformação de um homem em um ser grotesco. Nas tramas, ele também se depara com outros heróis, como Homem de Ferro, e antigos adversários dos X-Men, caso de Fanático e Mestre Mental, mas em encontros sempre marcados por cenários sombrios e cenas perturbadoras.
“Eu sabia que o Roy queria que o Fera fosse mais sombrio, mas, ao mesmo tempo, eu conhecia bem o personagem e não podia apenas transformá-lo em outra pessoa de uma hora para outra”, revelou Englehart. “Então, embora houvesse elementos de terror, eu estava escrevendo uma série de super-heróis, não de terror. Ele enfrentava circunstâncias terríveis, mas as encarava com a postura confiante de um herói.”
Publicada ao longo de 1972, a série do Fera foi marcada pela busca vã do cientista por uma maneira de reverter à forma humana. Coincidência ou não, no mesmo ano, a Marvel começou a publicar as séries de terror Werewolf by Night, Tomb of Dracula e The Frankenstein Monster, protagonizadas pelo Lobisomem da Noite, Drácula e pelo monstro de Frankenstein, respectivamente. Ainda em 1972, apresentou o demoníaco Motoqueiro Fantasma, e, nos anos seguintes, outros personagens monstruosos, como Homem-Lobo, Filho de Satã, Satana e outros. Por fim, vieram as marcantes revistas de terror adulto em preto e branco a partir de 1973, bem mais ousadas e assustadoras do que as lançadas pela editora até então.
Alguns desses personagens perduram como atrações sombrias da Casa das Ideias, e as antigas publicações costumam ser lembradas como um material saudoso, de uma época em que a editora ousou dar um passo para dentro da escuridão. A ironia é no centro dessa transformação ter estado um dos personagens menos assustadores e mais carinhosos do Universo Marvel. Afinal, se “todos os seres humanos que encontramos são misturas do que é bom e do que é mau”, como sugere Robert Louis Stevenson durante sua narrativa do drama do Dr. Jekyll, o Fera, ao contrário de seu colega literário, não se deixou definir por sua aparência monstruosa e sim pela bondade em seu coração.


Esta foi a SOC TUM POW 168. Cada edição apresenta a capa de um gibi de mesmo número, e essa vem acompanhada da capa de Star Spangled War Stories 168 (1973). A ilustração é de Joe Kubert, um dos artistas mais respeitados da indústria e conhecido, em especial, por seu trabalho em histórias de combate. Star Spangled foi uma das várias séries de guerra da DC e na qual estreou o Soldado Desconhecido, um combatente que tem a cabeça enfaixada com bandagens e cuja identidade é mantida em segredo. Eu gosto muito do visual de personagens misteriosos enrolados em bandagens, motivo pelo qual me interesso pelas histórias do Soldado Desconhecido. E essa capa, em especial, não apenas gera uma tensão pela possibilidade de a identidade do herói ser finalmente revelada, como também traz um trabalho primoroso dos vários planos na composição da cena.
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