Flash tristão
A capa do Flash que sempre me incomodou, mas que traz uma grande história de bastidor
Poucas capas de quadrinhos me incomodam mais do que a do Flash tristão. Não sei se por ser muito boa ou muito ruim, ela sempre capturava minha atenção quando eu estava dedilhando os gibis nos sebos em minha adolescência nos anos 1990. Enquanto mantinha a expectativa de encontrar uma edição de O Homem-Aranha e Liga da Justiça Internacional que eu não tivesse ou, quem sabe, das minisséries O Cavaleiro das Trevas ou Watchmen (impossíveis de se achar na época), surgia aquela capa do Flash cabisbaixo. Ela não me interessava. Mas interessa agora.
Nos Estados Unidos, foi publicada em 1993 no gibi The Flash 76, uma das primeiras edições da aclamada e longeva fase do herói escrita pelo roteirista Mark Waid. No Brasil, saiu em fevereiro de 1996 como capa da edição 119 de Os Novos Titãs, série mensal da Editora Abril que tinha as HQs do Velocista Escarlate como atração secundária. Eu não colecionava Os Novos Titãs e conseguia ignorar quase todas as edições em minhas garimpadas nos sebos, exceto essa. A capa do cabisbaixo Wally West, o Flash, tirava-me de meu transe e me obrigava a parar nela. Por ter se tornado “parada obrigatória”, a capa acabou me marcando.
Dias atrás, trinta anos após sua publicação no Brasil, a capa voltou a me atormentar, mais especificamente quando propus uma brincadeira no grupo de WhatsApp da SOC TUM POW ao perguntar: “Qual capa do gibi do Flash melhor representa a supervelocidade do herói?” Eu e outros membros começamos a pesquisar a série do Velocista Escarlate e, claro, mais uma vez, essa imagem do Wally West chorando pulou na minha frente, dessa vez em sua versão original, como publicada em The Flash 76. Que encosto! Resolvi pesquisar, o que garantiu ótimas surpresas.
Herói atormentado
Desenhada por Ty Templeton, ela mostra o herói no escuro, encolhido em um canto vestindo seu uniforme de Flash. Mas o que verdadeiramente chama a atenção é o imenso texto escrito em letras garrafais que ocupa mais de metade do espaço: “You are about to experience the most tragic day in the life of Wally West!” ou como saiu em Os Novos Titãs 119, “Você está prestes a presenciar o mais trágico dia na vida de Wally West!”
O então editor da série Os Novos Titãs, Mario Luiz Barroso, um fã confesso do Flash, tem ótimas lembranças da capa. “Escolhi por ser diferente, mas também por ser capa de uma tremenda história do Flash. O Mark Waid ainda era desconhecido para nós, e eu estava encantado com a trama. ‘Nossa, esse cara novo, esse Mark Waid, como ele escreve bem’, pensei.”
Barroso também revelou os bastidores que lhe permitiram escolher a capa que o fascinou. “Já sabíamos que a revista dos Titãs ia ser cancelada, então nos permitíamos fazer coisas diferentes”, relatou ao se lembrar que a série da Editora Abril seria encerrada cinco meses depois. “Essa capa teve um impacto muito bom nas vendas. Já não adiantava mais nada, mas teve um impacto muito bom.”
Homenagem à Era de Prata
A trama, como relembrado por Barroso, de fato é muito boa. “É a volta de Barry Allen, apesar de não ser o Barry Allen”, disse referindo-se ao antecessor de West como Flash. Anos antes, em 1985, a DC Comics chocou o público ao mostrar a morte de Allen, o homem que atuava como Flash desde as HQs de 1959 – e que inaugurou a chamada Era de Prata dos quadrinhos. Em seu lugar, a identidade heroica foi assumida pelo sobrinho Wally, o qual vivia assombrado pela morte do tio e pelo peso de substituí-lo. Mark Waid vinha explorando todo esse drama de maneira espetacular em um arco de histórias que marcava a volta de Barry.
Em The Flash 76, Wally fica profundamente decepcionado ao ser traído e abandonado para morrer em uma armadilha pelo tio, que o acusa de querer ofuscá-lo e de roubar a identidade de Flash. Mais que isso, tomado pela raiva, Barry garante que os cidadãos de Central City vão se arrepender de terem se esquecido dele: “Barry Allen será eternamente lembrado como o homem que destruiu uma cidade ingrata!”, ameaça.
Wally escapa da armadilha, mas, esmagado pela culpa, recolhe-se em sua casa e desiste de ser o Velocista Escarlate. Eis, então, “o mais trágico dia na vida de Wally West”. Pelo menos a culpa durou pouco, pois na edição seguinte ele descobre que o tio continua morto e que o vilão Professor Zoom estava se passando por ele.
O curioso é que a capa remete a um gibi da série anterior do Velocista Escarlate, também nomeada The Flash e publicada de 1959 a 1985. Assim como aquela que lhe renderia homenagem 25 anos depois, a capa de The Flash 184, de 1968, desenhada por Mike Esposito, também mostra uma versão atormentada do herói, que naquela época era encarnado por Barry Allen. Atrás dele, um fundo escuro, e ao lado do personagem, ocupando mais da metade do espaço da capa, o texto: “Você está prestes a ler o mais trágico dia na vida do Flash!” (“You are about to read of the most tragic day in the life of the Flash!).
Na trama, escrita por Frank Robbins, Barry usa seus poderes para salvar Central City de uma ameaça cósmica, o que, de fato, consegue, mas sem saber que o uso de sua velocidade de maneira extrema também destruiria seu lar. Ao encontrar uma cratera no lugar da cidade, ele se desespera sabendo que causou a destruição de Central City. Eis aí, “o mais trágico dia na vida do Flash.” Tudo se resolve quando o herói descobre que o teleporte da cidade inteira e viagens no tempo garantiram a segurança de seu lar.
O drama foi relembrado de maneira sutil por Mark Waid um quarto de século depois, quando o “Barry Allen” de sua história ameaça destruir Central City. Menos sutil é a homenagem à antiga capa. Perguntado sobre quem sugeriu uma arte aos moldes daquela lançada 25 anos antes, Waid esclareceu: “Já não me lembro mais de quem foi a ideia, mas tanto o [editor] Brian [Augustyn] quanto eu conhecíamos muito bem as capas do Flash da Era de Prata, então pode ter sido de qualquer um de nós”, disse à SOC TUM POW.
Se antes eu não aguentava mais me deparar com a imagem do Flash tristão, hoje fico feliz ao vê-la, e os minutos contemplando essa imagem (seja em Os Novos Titãs 119 ou em The Flash 76) não serão mais um incômodo e sim um privilégio por conhecer os bastidores de uma imagem tão icônica.

Esta foi a edição 154 da newsletter SOC TUM POW. Como regra, a cada edição trago uma capa de mesmo número de algum gibi ou revista, mas dessa vez abro uma exceção. Para celebrar os quarenta anos de lançamento da minissérie Batman: O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, cuja primeira das quatro edições chegou às bancas e lojas estadunidenses no fim de fevereiro de 1986, apresento um anúncio da então novidade. Esse foi publicado em janeiro daquele ano no gibi Secret Origin 2. O “reclame” prometia: “Batman e Robin como você nunca viu!” De fato. Um marco que continua moderno quatro décadas depois.
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Como você leu no texto principal dessa edição, os membros do grupo sugeriram imagens e votaram na enquete “Qual capa do gibi do Flash melhor representa a supervelocidade do herói?” O questionamento rendeu muito papo e fez surgir muitas imagens maravilhosas do Velocista Escarlate, mas para nosso grupo, a que melhor transmite a ideia de supervelocidade do herói é a capa variante de The Flash 58 (2019), desenhada por Karl Kerschl.
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