Sucesso distópico
Quase 45 anos após sua estreia, o mangá de ficção científica Akira continua a impressionar o público tanto por sua história quanto por seus bastidores
A publicação da série Akira em nosso país é daquelas histórias com ares de lenda. Lançado pela editora Globo em 1990, o mangá marcou época, mas seu misterioso desaparecimento nas bancas três anos depois (além de sua raridade nos sebos nos anos seguintes) o tornaram um mito entre os leitores. Surgiram várias teorias conspiratórias para explicar o sumiço, até que o mangá foi retomado e concluído. Apesar dessa epopeia editorial, a verdade é que os leitores brasileiros precisaram esperar nada menos que 35 anos após a criação da série para conferi-la da maneira como foi concebida. Se hoje você pode ler Akira facilmente, sinta-se privilegiado.
De autoria de Katsuhiro Otomo, Akira saiu originalmente no Japão como uma série quinzenal entre 1982 e 1990 na Young Magazine, uma antologia de quadrinhos voltada para o público masculino adulto e adolescente, lançada pela editora Kodansha. Ao conceber a trama, Otomo começava a se firmar na carreira e já contava com um certo prestígio, fruto de HQs curtas criadas nos anos 1970 e, principalmente, da série Domu (1980-1981), focada em ficção científica e no sobrenatural. Lançada na própria Young Magazine, Domu caiu nas graças do público.
Foi com a badalação desse trabalho recém-concluído que Otomo, com 28 anos, apresentou Akira a seus editores. Na época, o artista estava empenhado em experimentar novas técnicas e queria empregar um visual mais cinemático nos mangás. A nova HQ mantinha parte da receita de Domu ao apresentar um cenário sci-fi e personagens paranormais, mas vinha bem carregada de ambientação cyberpunk. “Eu pensava muito em Tóquio durante os estágios iniciais e queria fazer uma ficção ambientada nessa cidade caótica”, explicou Otomo em uma entrevista de 1993. O resultado foi um cenário marcado por um futuro disfuncional, repleto de tecnologia e decadência e ilustrado em cenas ágeis e impactantes.
Além da influência de filmes e animações, a criação de Akira foi marcada pelos mangás que o autor leu na adolescência, caso de Tetsujin 28-go (Gigantor, no Brasil). Publicada entre 1956 e 1966 no Japão, essa HQ traz as aventuras do menino Shotaro Kaneda, que encontra e passa a controlar Tetsujin 28, um robô gigante desenvolvido como arma pelos militares no final da 2a Guerra Mundial. Otomo apropriou-se de vários elementos de Tetsujin 28-go, como o nome dos personagens. Kaneda, o protagonista de Akira, por exemplo, foi batizado a partir do menino Shotaro Kaneda. Já aos moldes do robô, o jovem Akira foi aprisionado pelos militares para ser usado como arma durante a 3a Guerra Mundial e é identificado como Número 28. Como o próprio Otomo já revelou, “Akira é uma releitura de Tetsujin 28-go, que foi meu ponto de partida”.
Premissa (sem spoilers)
A série de Otomo se passa em 2019, época em que o mundo ainda se reconstrói da já encerrada 3a Guerra, que eclodiu em 1982 (na versão estadunidense de Akira, as datas foram mudadas para 2030 e 1992). A própria cidade de Tóquio, rebatizada de Neo Tóquio, mantém a quilométrica cratera causada pela explosão que iniciou o conflito.
Palco de manifestações políticas, ação de gangues e violência desenfreada, a metrópole abriga o delinquente Kaneda e seu bando de motociclistas, dentre os quais o impulsivo Tetsuo, que se envolve em um grave acidente com uma criança dotada de poderes psíquicos. Com o desaparecimento de Tetsuo após ele ser levado pelos militares, Kaneda inicia uma investigação que o conduz por toda a trama.
Na busca pelo amigo, ele descobre que o menino causador do acidente é chamado de Número 26 e fugiu de uma instalação militar que mantém crianças com habilidades psíquicas. Dentre elas, está o menino Akira, a mais poderoso dessas crianças e deixado em animação suspensa desde o início da 3a Guerra devido a seu poder ilimitado. Aprisionado nesse departamento, Tetsuo tem seus poderes latentes desencadeados, assim como um lado sombrio que o leva a cometer atos cada vez mais cruéis.
Ao descobrir que Akira é mais forte do que ele, Tetsuo dedica-se à destruição do garoto para se firmar como o ser mais poderoso da Terra. Enredado por esses acontecimentos, Kaneda se une a um grupo rebelde que luta para encerrar as atividades dos militares, enquanto ele próprio se esforça para evitar que Tetsuo destrua a si e a todo o planeta.
Repercussão e versão da Marvel
Foi com essa trama que a HQ, planejada inicialmente para 1.800 páginas, estendeu-se para 2.100 (bem mais do que as 230 de Domu) e fascinou os japoneses. Em 1984, Akira faturou o prêmio Kodansha Manga Award como o melhor mangá para jovens adultos, e no mesmo ano, começou a sair em encadernados em uma coleção de seis volumes que seria concluída em 1993, atingindo a marca de mais de 3,5 milhões de cópias vendidas. No rastro do sucesso, o longa-metragem animado Akira foi produzido em 1987 e estreou em julho de 1988 sem que o mangá estivesse concluído – motivo pelo qual o final dos dois é diferente. A animação trouxe ainda mais popularidade ao trabalho de Otomo, inclusive fora do Japão.
No mês seguinte à estreia do longa nos cinemas, o mangá chegou à terra do Tio Sam em uma surpreendente versão colorida e em formato americano editada pela Marvel. Sua produção foi supervisionada por Archie Goodwin, antigo editor do selo Epic, a divisão de quadrinhos autorais da Casa das Ideias e sob o qual Akira foi lançado. O material contou ainda com a liderança editorial de Margaret Clark, responsável por editar o material e pelo trânsito de páginas entre Estados Unidos e Japão, onde eram conferidas pela Kodansha e Otomo.
O intrincado processo de “ocidentalização” do gibi envolvia várias etapas. No Japão era feita a tradução literal para o inglês, além de adaptações na arte e balões e o espelhamento das páginas (para que a leitura ficasse no sentido ocidental). Nos Estados Unidos ocorria a adaptação da tradução (a cargo da editora Mary Jo Duffy), a preparação de textos internos, a produção de capas e, claro, a colorização digital (obra do artista Steve Oliff), a qual chamou a atenção de todo o mercado de quadrinhos da época.
Para complicar o processo, a Marvel só estava autorizada a trabalhar sobre o material dos encadernados japoneses e não o das páginas de Young Magazine. Para que isso fosse possível, Goodwin e a equipe da Kodansha dividiram os álbuns originais – que variavam de 280 a 300 páginas – em grupos de 64 páginas, que se tornariam 38 edições estadunidenses. Isso causou um sério atraso ao longo da série, pois chegou o momento em que a produção da Marvel alcançou a coleção de encadernados da Kodansha, que ainda não estava concluída. Por conta disso, a periodicidade de Akira nos Estados foi ampliada e o mangá só foi concluído por lá em 1996.
No Brasil
Em nosso país, Akira estreou em 1990 como uma série mensal da Ed. Globo e, por determinação da Kodansha, foi produzida a partir do material da Marvel, o que causou um grande problema quando as versões estadunidense e japonesa se alinharam. “Os materiais de reprodução vindos dos Estados Unidos começaram a atrasar até que pararam de chegar e não tivemos outra escolha a não ser interromper a publicação”, explicou-me Leandro Del Manto, editor da versão brasileira de Akira. “Mas essa decisão foi muito repentina e nem tivemos tempo de avisar os leitores, que acharam que havíamos cancelado por causa de baixas vendas. Pelo contrário, Akira vendia muito bem para uma HQ mensal naquele formato.”
Interrompida em setembro de 1993 na edição 33, a série da Globo só foi retomada em dezembro de 1997, o que deu origem a vários boatos, como a editora ter retomado a publicação motivada por um processo judicial movido por um leitor. A verdade, contudo, é que o material estadunidense só foi liberado para a Globo naquele ano, quando Del Manto e sua equipe voltaram com tudo para produzir os cinco números que faltavam.
Desde a conclusão de Akira no Brasil, várias editoras tentaram comprar os direitos de publicação do material japonês, mas Otomo simplesmente não estava interessado em novos licenciamentos. Isso mudou por volta de 2014 e a JBC venceu uma acirrada concorrência, tornando-se a editora oficial do mangá em nosso país.
A versão da JBC foi anunciada em abril de 2015, com o lançamento previsto para dezembro daquele ano, mas novos obstáculos não tardaram a aparecer. O principal foi a decisão tardia da Kodansha de remasterizar o mangá para que todas as versões lançadas a partir de então estivessem alinhadas como parte de uma coleção definitiva. Com isso, o material de reprodução só começou a ser liberado para a JBC no meio de 2016. “Após isso, atravessamos um processo de aprovação rigoroso em que tudo passava pela equipe de Otomo”, explicou-me na época o editor da nova versão de Akira, Cassius Medauar. “Tivemos até que mandar provas impressas para o Japão, algo muito raro de acontecer em qualquer aprovação”.
Ainda que a remasterização das páginas tenha atrasado o lançamento, a espera valeu a pena. O Brasil foi o segundo país do mundo a conferir o material remasterizado, pois até então apenas a França tinha publicado a nova versão. Nem os leitores japoneses tiveram acesso à novidade antes disso, já que por lá o mangá continuava a ser impresso a partir da versão dos anos 1980.
Publicada de 2017 a 2019, a coleção da JBC saiu em seis álbuns e permitiu ao público brasileiro, finalmente, ler Akira da maneira como a série veio ao mundo, ou seja, com miolo em preto e branco e com o sentido de leitura oriental. Com isso, a editora encerrou uma grande espera para aqueles leitores que demoraram anos (e até décadas) para ler a obra-prima de Katsuhiro Otomo.

Conversei com o editor da primeira versão de Akira no Brasil, Leando Luigi Del Manto, para entender como foi a complexa publicação do mangá em nosso país nos anos 1990.
O que motivou a editora Globo a publicar Akira?
Em 1989, os mangás ainda não haviam se popularizado, mas a repercussão positiva do lançamento de Akira nos Estados Unidos foi determinante para que a Globo decidisse lançá-lo no Brasil. Essa decisão fez parte de um ambicioso projeto da editora de lançar uma linha de HQs adultas e luxuosas, que envolvia Sandman, V de Vingança, Orquídea Negra, Dreadstar, O Fantasma (a série da DC que revitalizava o personagem) e uma linha de graphic novels.
Como você entrou no projeto?
Eu era editor de quadrinhos na Ed. Abril e um ex-diretor comercial veio conversar comigo sobre a possibilidade de eu ir para a Globo cuidar das HQs. Quando soube do que se tratava e que alguns dos títulos que eu havia tentado lançar na Abril, como Sandman e V de Vingança, estavam praticamente com o contrato assinado, não pensei duas vezes. E Akira estava na lista. Na época, aquela versão americanizada chamou a atenção pelo colorido digital e eu estava empolgado para trabalhar com um material tão revolucionário.
Por que a Globo optou pela versão estadunidense?
Nosso contrato foi com a Kodansha, mas usamos o material da Marvel. Era o que os japoneses queriam pois estavam cientes de que uma série em PB poderia não ser atrativa para o público acostumado às HQs coloridas americanas e europeias. Outra questão foi a leitura. Hoje o sentido da direita para a esquerda é aceito numa boa, mas no final dos anos 1980 aquilo era impensável. Então, a solução adotada pelos americanos foi espelhar o fotolito preto da edição japonesa para que a leitura obedecesse aos critérios ocidentais. Por isso, quase todo mundo nessa versão é canhoto.
A produção exigiu algo diferente em sua função como editor?
Akira era diferente de tudo o que fazíamos. O fechamento de cada edição era uma alegria, pois toda a redação estava no clima da animação. Uma peculiaridade da versão da Globo foram as capas produzidas no Brasil. Como eu achava as americanas feias, pedimos ao dinamarquês Kim Oluf que fizesse as nossas. Ele se baseou nas ilustrações originais do mangá e nas peças publicitárias do anime e produziu as artes aerografadas que foram o diferencial da nossa versão.
Vocês usaram computadores na época, não?
Sim. Até então, tudo era feito da maneira antiga, nas pranchetas, diagramas com paste-up, laudas com marcações... Um dia, chegou um computador na redação, um verdadeiro trambolho e, aos poucos, começamos a nos interessar por ele. Foi quando tivemos a ideia de usar um tipo de fonte diferente nos textos que apareciam nas telas de computador da HQ e nos balões falados por robôs. Para isso, usávamos uma impressora matricial com fita nova e bem preta, fazíamos uma cópia em papel fotográfico para dar mais nitidez ao texto e colávamos nas páginas.
Akira se tornou um dos materiais mais difíceis de se encontrar em sebos nos anos 1990. Você sabe o motivo?
Um grande negócio para as editoras nos anos 1990 era tirar as capas das revistas e encadernar os capítulos numa só edição. Foi com essa estratégia de aproveitamento de encalhe que surgiram os chamados encadernados. Porém, a nova tiragem, que era bem menor por causa da crise econômica, prejudicou a distribuição nacional e sequer sobrou encalhe para encaderná-las. Por isso, é tão difícil encontrar os últimos números.
Almanaque heroico
Quem foi adolescente nos anos 1990 se lembra de que, sim, era tudo mato. Com a internet ainda engatinhando, as fontes de informação sobre a cultura nerd eram escassas. Nessa secura, a melhor forma de se informar estava nas bancas de revistas e era conhecida pelo merecido nome de Herói.
A revista, criada pelo jornalista André Forastieri em 1994, fez a alegria dos nerds que buscavam saber mais sobre as sensações da época, como o anime Cavaleiros do Zodíaco, o seriado Arquivo X ou as novidades da Marvel e da DC que chegariam ao Brasil – a edição 48, por exemplo, publicada em 1995, também trouxe uma matéria sobre Akira. A guerreira revista, ou melhor, a heroica revista chegou ao fim no início dos anos 2000 após alimentar a mente e o coração de vários fãs. Mas está de volta.
Sua nova encarnação é na forma do Almanaque Herói, uma revista impressa que continua a trazer o melhor do que rolou na cultura pop dos anos 1980 a 2000. Mas, além da nostalgia, a publicação – novamente sob a coordenação e com a edição de Forastieri – também traz atualidades e prepara o público para o que está por vir.
Com o lançamento previsto para outubro, o Almanaque Herói 1 trará matérias sobre Dragon Ball Z, os sucessos da Marvel e da DC lançados trinta anos atrás, bonecos da Glasslite, Ultraman, Morcego Vermelho e, claro, Cavaleiros do Zodíaco, o anime que foi o carro-chefe da primeira versão da Herói. Essas são apenas algumas das atrações desse primeiro almanaque, que contará ainda com matérias sobre tokusatsu, locadoras, monstros e mais.
O Almanaque Herói 1 está em financiamento coletivo no Catarse, onde você poderá apoiar, conhecer as recompensas para cada apoio e saber muito mais sobre as novidades dessa publicação que promete tocar o coração de muita gente.
Essa foi a edição 164 da newsletter SOC TUM POW e com ela trago a capa de um gibi de mesmo número. The Swamp Thing 164 foi lançada trinta anos atrás, em março de 1996, concluindo uma série de quatro capas em preto e branco desenhadas e finalizadas por John Totleben. Sou fascinado pelas ilustrações sombrias do francês Gustav Doré (1832-1883), sempre em preto e branco e marcadas por infinitas hachuras promovendo o volume e a iluminação. Nessa capa, em que o Monstro do Pântano enfrenta o cavaleiro místico Senhor da Noite, creio que Totleben foi muito feliz — de maneira intencional ou não — em remeter ao trabalho de Doré.
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Mais um texto excelente, Gustavo!
Akira é um dos meus quadrinhos preferidos da vida, me apaixonei primeiramente pelo Anime, mas quando li a série da Globo de um amigo me apaixonei de vez, infelizmente nunca consegui comprar as edições da Globo, deixei passar por falta de grana, tenho algumas edições "sortidas". Mas felizmente a JBC republicou e comprei e reli e continua excepcional.