Vale a intenção
A Saga do Clone é um dos momentos mais conturbados das HQs, mas surgiu de uma boa intenção. Conheça os bastidores de criação dessa estranha fase do Aranha
Uma verdadeira provação chegava ao fim para os fãs do Homem-Aranha trinta anos atrás, quando A Saga do Clone foi concluída, em 1996. Isso nos Estados Unidos, porque a famigerada fase que sequestrou os fãs do herói durante dois anos por lá sequer tinha começado no Brasil. O martírio dos leitores de nosso país se daria logo depois, de março de 1997 a dezembro de 1998, um período de pouco mais de um ano e meio que, assim como nas paragens estadunidenses, fez muita gente abandonar as histórias do Amigão da Vizinhança. A ironia é que a prolixa fase surgiu como uma história bem estruturada, concebida para durar apenas três meses e pensada por autores bem-intencionados.
Retrato de tudo o que havia de errado com o mercado de quadrinhos dos anos 1990, A Saga do Clone foi a consequência de um cabo de guerra entre a equipe editorial e o departamento de marketing da Marvel. Na época, a editora vinha de um período de bonança, resultado dos métodos agressivos de administração da equipe de Ron Perelman, o empresário que comprara a editora em 1989. Conhecido por seu extrativismo brutal em que sugava o máximo de tudo aquilo que fosse lucrativo das empresas que obtinha, Perelman trouxe à editora executivos alinhados ao seu pensamento, inclusive Terry Stewart, que assumiria posições de comando até chegar à presidência da Marvel no início dos anos 1990.
Defendendo os interesses de Perelman e os seus próprios, Stewart focou nas vendas, abusando de estratégias rasteiras como o lançamento de gibis com capas variantes, capas com acabamento especial, várias edições de número 1 para atrair novos leitores e foco em personagens e artistas badalados da época. Não demorou para a profusão de publicações resultar em uma enxurrada de HQs de baixa qualidade, que serviam mais para atender às demandas dos executivos e das equipes de vendas e de marketing, do que em levar bons materiais aos leitores.
Receoso com essa estratégia agressiva estava o departamento editorial, composto pelas pessoas que realmente criavam as histórias. Mesmo em meio àquela demanda ensandecida, editores e roteiristas tentavam manter a “normalidade” na cronologia do Universo Marvel e na produção das histórias.
Evento aracnídeo
No início de 1994, quando A Saga do Clone começou a ser gestada, o destino do Aranha recaía basicamente sobre cinco autores. Quatro eram os roteiristas de cada uma das séries mensais do herói: J.M. DeMatteis (Amazing Spider-Man), Terry Kavanagh (Web of Spider-Man), Howard Mackie (Spider-Man) e Tom DeFalco (Spectacular Spider-Man). DeFalco tinha ainda o importante cargo de editor-chefe, supervisionando todos os editores da Casa das Ideias, inclusive Danny Fingeroth, editor das séries do Aranha e quinto elemento do quinteto criativo.
Todos já contavam com uma experiência considerável com o personagem. DeMatteis, Kavanagh e Mackie escreviam histórias do Aranha desde 1991, DeFalco editou a série Amazing Spider-Man de 1981 a 1983, e foi substituído por Fingeroth em 1984, que assumiu a editoria dos demais títulos em 1991, tornando-se editor-geral do Aranha. Ao quinteto, uniam-se os editores de cada série do herói, todos respondendo a Fingeroth.
Na época, o editorial estava em busca de um grande evento que não apenas conectasse as quatro séries mas que fosse um estrondoso sucesso de vendas. A rival DC Comics tinha feito muito barulho e faturado milhões de dólares com a morte e ressurreição do Superman em 1993, e há quem diga que a ordem do presidente Terry Stewart era repetir o sucesso da concorrente, o que teria motivado a equipe do Aranha a pensar na Saga do Clone. Mas os roteiristas Terry Kavanagh e Howard Mackie afirmam que o planejamento se deu à revelia do sucesso da DC. “Nós só estávamos encarregados de apresentar um grande evento. Todo mundo estava publicando grandes eventos na época, e tinha chegado a vez de termos um do Aranha”, relembrou Mackie em entrevista no YouTube.
Seja focado no sucesso da morte do Superman ou não, o editorial se reuniu em fevereiro de 1994 em mais um de seus tradicionais retiros criativos, nos quais costumavam planejar a vida do personagem pelos dois anos seguintes. A ideia de uma história envolvendo a duplicata de Peter Parker veio de Kavanagh, hoje tido como “o pai” da Saga do Clone. Ele andava incomodado com os rumos que vinham sendo dados ao herói. “Como roteiristas, nós, que estávamos nos casando, envelhecendo e pagando financiamentos, acabamos distanciando o Homem-Aranha de seu público”, explicou. “Quando éramos jovens, Peter Parker tinha que fazer a lição, ir a um encontro, cuidar da tia, tratar de um resfriado e enfrentar o Doutor Octopus, tudo ao mesmo tempo. De repente ele estava preocupado com financiamento e casado com a mulher mais linda da cidade, algo que tirou toda a tensão sexual das histórias”.
Clone-Aranha
Sob a pressão de ajudar a conceber um grande evento para o personagem e incomodado com o fato de o Aranha ter envelhecido, Kavanagh lançou aos colegas a possibilidade de revisitarem uma antiga história de 1975, em que o Aranha se viu às voltas com seu clone. Em meio a tramoias e pistas falsas, o herói chegou a duvidar de sua própria origem, questionando se era um clone ou o verdadeiro Peter Parker. Ao final da trama (publicada em Amazing Spider-Man 149-150), ele, enfim, concluiu ser o genuíno e, acreditando que sua duplicata estivesse morta, arremessou-a dentro de uma grande chaminé industrial para ser cremada e nunca mais vista.
Para Kavanagh, a antiga trama tinha algumas camadas de complexidade que o fascinavam. “Um clone do Aranha só poderia ser um cara bom, então aquela foi uma história de dois caras bons envolvidos em uma situação ruim, o que tornava mais difícil saber para quem torcer e dificultava pensar em uma boa solução para aquele problema”. As elocubrações do roteirista sobre a antiga história do clone e a então atual situação do Aranha se uniram. “Quando estávamos conversando às duas da manhã sobre o que fazer, resgatei aquela história”, relembrou, continuando: “Estávamos naquele momento em que o Homem-Aranha acabou se distanciando do público por já ter se formado, casado e estar trabalhando. Então, e se o outro estivesse vivo e saído da cidade para não atrapalhar a vida de Peter, mas agora tivesse retornado?”
A sugestão final de Kavanagh era fazer disso o grande evento que buscavam e, na conclusão da trama, revelar que o Peter que atirara seu oponente dentro de uma chaminé industrial anos antes era, de fato, o clone, e tinha vivido os últimos anos acreditando ser o verdadeiro, inclusive casando-se com a amada Mary Jane. Os roteiristas poderiam tirar o casal dos holofotes e substituir aquele Aranha casado por um Aranha novinho que, para todos os efeitos, era o verdadeiro: “Teríamos novamente um Homem-Aranha solteiro, de volta à escola e fazendo todas aquelas coisas que eram naturais a ele.”
Por mais ousada que a ideia fosse, Kavanagh contava com uma boa experiência como editor para embasá-lo. Para se ter uma ideia, antes de assumir como roteirista de Web of Spider-Man, ele foi editor de mais de cem edições de Marvel Comics Presents, série que, por muito tempo, serviu de revista mensal do Wolverine. Foi sob sua supervisão, por exemplo, que foi publicado Arma X, o arco de histórias que, até hoje, é considerado a origem definitiva do mutante. Foi Kavanagh também quem editou a aclamada série mensal Namor, em que o astro John Byrne revitalizou o Príncipe Submarino.
Apesar da experiência de Kavanagh, seus colegas roteiristas e editores sabiam que sua ideia para o Aranha enfureceria muitos fãs da época. Porém, aos poucos, acabaram convencidos de que ela poderia renovar o público e a colocaram para funcionar.
O planejamento inicial era que a trama fosse publicada ao longo de três meses ocupando cada uma das quatro séries mensais do Aranha. Com as revistas tendo datas de lançamento diferentes entre si, na prática, A Saga do Clone seria interligada ao longo de doze capítulos semanais. “Tínhamos tudo planejado do começo ao fim, mas esse planejamento foi jogado pela janela quando os departamentos de venda e marketing foram envolvidos”, lembrou Kavanagh.
Marketing tirânico
Em algum momento entre o segundo semestre de 1991 e o início de 1992, bem antes de A Saga do Clone ser concebida e no meio daquela euforia de ótimas vendas, houve um fortalecimento e reestruturação do departamento de marketing da Marvel. Convencido por um de seus asseclas, o presidente Terry Stewart foi na contramão do que os funcionários mais antigos do setor de vendas pregavam – diversificar as publicações da editora e apostar em outros gêneros e personagens – e decidiu focar a propaganda nos medalhões, o que, claro, incluía o Homem-Aranha.
O pessoal do marketing era odiado pelo editorial, pois, com a proteção dos altos escalões da editora, surgiam com demandas cada vez mais absurdas, como criar séries de personagens com pouco apelo só para ter um novo número 1 nas lojas, aumentar páginas de revistas sem levar em conta o tempo de produção e abusar de personagens aclamados, colocando Aranha, Wolverine e Justiceiro em diversas séries ao mesmo tempo. Os embates entre marketing e autores eram constantes.
A fim de ter um departamento editorial mais manipulável, no fim de 1994 – agora sim, quando A Saga do Clone, iniciada em agosto daquele ano, já estava em andamento –, o presidente da Marvel tomou a decisão de eliminar o cargo de editor-chefe (promovendo DeFalco a um novo cargo, o qual ele recusou) e substituí-lo por cinco “editores-chefes” menores, cada um responsável por um grupo de publicações. Como líder das publicações do Aranha, assumiu Bob Budianski, a quem Danny Fingeroth passou a responder. Cada núcleo de publicações ganhou um assistente de marketing fungando em seu cangote e a missão de garantir o absurdo valor de US$ 160 milhões de vendas anuais. O clima ficou ainda mais tenso.
“A Saga do Clone foi uma vítima do próprio sucesso na época, pois as vendas de todo o resto estavam caindo, e quando começamos A Saga do Clone, as vendas do Homem-Aranha estavam crescendo”, relembrou o então roteirista de Spider-Man Howard Mackie. “Foi quando os departamentos de vendas e de marketing, que naquela época mandavam em tudo na Marvel, disseram que tínhamos que continuar publicando aquela trama”. A despeito das reclamações dos autores e editores envolvidos, o marketing não arredou pé.
Enchendo linguiça
O novo editor-chefe Bob Budianski atendia as ordens do marketing com pouca ou nenhuma resistência. Como resultado, a história do clone, que deveria durar três meses, durou 26, sendo publicada de agosto de 1994 a outubro de 1996. A história, então, tornou-se algo totalmente diferente de sua versão original, e os roteiristas passaram a quebrar a cabeça para estender a trama e a resolver furos de roteiro de algo que já não se sustentava. “Chegou um momento em que estávamos só enchendo linguiça para não termos que concluir”, lamentou Kavanagh.
Os absurdos que acometeram a vida do Aranha nessa época são tantos que chegam a constranger os envolvidos. Mackie, por exemplo, confessou ter vergonha de Scarlet Spider 2 (1995), a segunda edição da minissérie dedicada ao Aranha Escarlate, a identidade heroica adotada momentaneamente pelo clone. Na capa, o Aranha Escarlate é mostrado portando uma submetralhadora UZI, algo totalmente destoante da índole do Homem-Aranha, fosse ele o clone ou o verdadeiro. Segundo ele, seu constrangimento é sempre certo quando algum fã pede autógrafo nessa edição.
O processo de criação era extremamente caótico, como recorda Mackie: “Eu me lembro de ter participado de uma reunião horrível em que estavam cada roteirista, cada editor, o editor-chefe [Budianski], todos os editores assistentes e editores associados. Estávamos em uma chamada compartilhada ao telefone, o que tornava a coisa impossível. Estávamos tentando escrever essa coisa por comitê.” Por fim, Budianski foi substituído por Bob Harras no início de 1996, que, em algum momento, quando A Saga do Clone já era publicada há quase dois anos, mandou os roteiristas darem uma conclusão a ela.
No fim, nada do que foi planejado naquela reunião de fevereiro de 1994 foi levado a cabo: Peter Parker era o Peter Parker de sempre, o clone era, de fato, o clone, e não apenas não substituiu sua matriz como acabou sendo morto ao final do arco. O Aranha continuou casado com Mary Jane, abrindo espaço para, onze anos depois, em 2007, a Marvel retomar a discussão de o herói estar velho demais e, finalmente, anular seu casamento. Como único aceno a uma versão mais tradicional do herói aracnídeo, A Saga do Clone resgatou o vilão Norman Osborn, o Duende Verde, morto nas HQs desde 1973 e tido como a grande mente criminosa por trás dos acontecimentos envolvendo o Aranha e sua duplicata.
Mesmo com uma famigerada reputação, A Saga do Clone é lembrada com saudade por muitos dos leitores da época, tanto que já foi republicada em vários formatos. No Brasil, por exemplo, vem sendo lançada em uma coleção de encadernados desde 2024. Apesar do saudosismo, ela foi o reflexo de uma época vergonhosa para as HQs, quando o processo criativo e o respeito aos leitores eram sacrificados em nome de lucros exorbitantes, uma época em que o editorial foi obrigado a se ajoelhar ao marketing.
Eu gostaria de pensar que A Saga do Clone serviu para ensinar uma lição que jamais seria esquecida, mas ao ver os executivos da Disney tendo com a Marvel o mesmo comportamento exploratório que tiveram os executivos de Ron Perelman, não me surpreenderei quando nos depararmos com um equivalente atual da “saga” que levou diversos leitores a abandonar os gibis da Marvel nos anos 1990. Na verdade, tenho a impressão de que isso já está acontecendo.

Essa foi a edição 163 da newsletter SOC TUM POW e com ela trago a capa de um gibi de mesmo número. The Flash 163 chegou às bancas há exatos sessenta anos, em junho de 1966, apresentando essa impactante ilustração de Carmine Infantino na capa. O apelo era imenso. Posso imaginar alguém passando ao lado da banca de revistas e vendo o Flash dizer que “PARE!” Como não parar? Foi o Flash que mandou. Eu pararia. E ele ainda suplica: “Não perca essa edição! Minha vida depende disso!” Não se preocupe, ó, nobre Velocista Escarlate, salvá-lo-ei de seu terrível destino. “Moço, vou levar essa aqui”.
Desde a ideia até a execução, a capa, com arte-final de Joe Giella, representa tudo de bom que existia na inocente Era de Prata (1956-início dos anos 1970).
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Referências
HOWE, S. Marvel Comics: A História Secreta, 1a edição – São Paulo: LeYa, 2013
HERNON, Terry. Trapped in his own web. Marvel Age, Nova York, n. 137, p. 12-14, jun. 1994.
DOUGLAS, B. DeFalco talks Clone Saga. Spider-Man Crawl Space.com. 9 de janeiro de 2013. Em https://www.spidermancrawlspace.com/2013/01/defalco-talks-clone-saga. Acesso em 30 de maio de 2026.
Dollar Bin Bandits. Howard Mackie & Terry Kavanagh. YouTube, 25 de maio de 2022. Acesso em 31 de maio de 2026.










Li nos formatinhos toscos da Abril... Era assinante. Novelão chato.
Caramba, mais uma edição maravilhosa, Gustavo!
Incrível como em quase todo cenário a equipe de marketing tem alguma culpa no processo 🤣🤣
Agora, curioso como o Aranha tem azar até mesmo em questões editoriais. Porque fora a lambança da Saga do Clone, tem a questão dos debates do Ditko e do Lee sobre o Duende Verde, a questão do casamento, a Saga do Duende Macabro...e por aí. É muito azar pra um personagem só.